sexta-feira, 2 de julho de 2010

PMs PRESOS RECEBEM “FACILITAÇÃO”

A prisão do policial militar Wendel Cortez de Almeida (33 anos), acusado pelo homicídio da aposentada Maria do Carmo Bay dos Santos (62 anos) em dezembro de 2009 na cidade de Monte Alegre, e o argumento usado pela defesa para conseguir o relaxamento da prisão, acabaram por expôr um problema grave na Segurança Pública do Estado: PMs presos na carceragem do Quartel da Polícia Militar recebem “facilitação” para sair e cometer outros crimes. A denúncia é da própria Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Sesed).

O comando da PM nega qualquer “ineficiência” na guarda dos policiais presos no quartel, mas por determinação da Sesed transferiu, já há algum tempo, a carceragem militar para o quartel do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). O local conta com um sistema de câmeras, equipamento que deverá aumentar o grau e qualidade da vigilância sobre possíveis “saídas” não autorizadas de PMs presos.

A última prisão do PM Wendel Cortez ocorreu na manhã do dia 17 de junho, quando ele se apresentava ao 4º Batalhão da Polícia Militar (Zona Norte de Natal). Três dias antes, ele havia sido liberado de uma outra ordem de prisão por conta de envolvimento no assassinato da dona de casa Francisca Lúcia Lopes Dantas, de 30 anos, e na tentativa de homicídio contra o pedreiro Jackson Michel, crimes ocorridos no dia 5 de março. Foram 67 dias na carceragem.

O crime contra a aposentada Maria do Carmo Bay, em Monte Alegre, foi no dia 12 de dezembro. Neste dia, de acordo com registros da carceragem da PM e da própria Justiça, apresentados pela advogada de defesa Cátia Nunes ao juiz da Comarca de Monte Alegre, José Ricardo Dahbar Arbex Wendel Cortez estava em uma cela do QG da avenida Rodrigues Alves, em Natal. “Não posso ter cometido o homicídio que me acusam se estava preso no Quartel naquela época. Só saí no dia 15 de dezembro”, se defendeu o PM Wendel Cortez durante entrevista concedida antes de prestar depoimento na 11ª Vara Criminal, sobre um outro caso, ocorrido em 2007 e referente a tortura.

Na corporação há 11 anos, o PM Wendel Cortez tem uma folha corrida relacionada à participação em crimes e suspeita de ligações com grupos de extermínio. Mas, o fato de estar sendo acusado de um crime quando estava preso, faz o PM acreditar em uma perseguição por parte da Polícia Civil e, em especial, do delegado titular da Divisão Especializada no Combate ao Crime Organizado (Deicor), Ronaldo Gomes.

“É algo pessoal do delegado contra mim. Todos nós sabemos que existe grupo de extermínio no Estado e com a participação de policiais militares. Mas sou um PM honesto. Devem prender quem realmente tem envolvimento real. Não adianta ficar me acusando de todos os homicídios do Estado. Não sou culpado”, afirmou.

Sesed afirma que PM “saiu da cela e cometeu crime”

Para a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Sesed), não há dúvidas que o PM Wendel Cortez participou do homicídio no dia 12 de dezembro do ano passado, em Monte Alegre. Apesar da ordem de prisão contra ele e do fato que “deveria” estar em uma cela do QG da Polícia Militar, Wendel era um dos policiais presos favorecido por “saídas e ausências” não autorizadas.

A cúpula da Sesed também não tem dúvidas de que, na época, “alguns policiais presos na carceragem do Quartel da PM estavam saindo durante o dia ou a noite para cometer crimes”. A certeza da Sesed é reforçada por depoimentos das testemunhas do homicídio da aposentada em Monte Alegre.

Segundo o delegado Ronaldo Gomes, que investiga o caso, essas testemunhas teriam confirmado, com 100% de certeza, que viram o PM Wendel Cortez atirando três vezes contra Maria do Carmo Bay. No entanto, só recentemente, depois que viram uma foto do PM na prisão, é que puderam reconhecê-lo. “Conforme disseram, ele estava de ‘cara limpa’, ou seja, não cobria o rosto, no momento dos disparos. Até por isso, tiveram certeza na hora da identificação”, contou o delegado.

O delegado não comenta as acusações do PM sobre “perseguição”. Mas reconhece que em relação ao envolvimento do PM no homicídio de Francisca Lúcia, nada foi confirmado, até porque o inquérito ainda não foi concluído. No entanto, em relação à tentativa de homicídio contra Jackson Michel, Wendel foi indiciado. “Já encaminhamos o pedido de mandado de prisão preventiva para ele em relação a esse caso, mas ainda aguardamos resposta da Justiça”, afirmou o Ronaldo Gomes.

Wendel Cortez insiste na tese da defesa. “Todo mundo me conhece por lá (no 4ª BPM). As acusações quem faz são os bandidos. Traficantes, homicidas, assaltantes, esses não gostam de mim mesmo e sempre vão dizer que sou criminoso. Quero que ouçam em depoimento as pessoas de bem da zona Norte. Essas, com certeza, vão ficar ao meu lado”, afirmou.

No inquérito sobre a tentativa de homicídio de Jackson Michel, além de Wendel, foram indiciados os também PMs Rafael de Souza, que já está preso, Marcos Antônio da Silva e Cristiano Tavares da Rocha, que continuam em liberdade. “Não fizemos o pedido de prisão preventiva destes dois. Vai depender da Promotoria Criminal se vão ou não ser presos”, contou o delegado Ronaldo Gomes.

O PM Rafael de Souza também “ganhou” mais um mandado de prisão ao ser acusado, junto com o soldado da PM Rosivaldo Azevedo Maciel Fernandes, de participação em um duplo homicídio registrado em Extremoz, no dia 31 de dezembro de 2008. As vítimas foram o guia turístico Amaury José da Silva Nascimento, 31 anos, e a dona de casa Dione Torres da Penha, a “Pretinha”, de 21 anos. Além disso, Rafael responde também a um processo movido pela ex-mulher, referente à agressão (Lei Maria da Penha).

Aberto inquérito administrativo

O comandante-geral da Polícia Militar, coronel Araújo Silva, afirmou que Wendel Cortez, além dos inquéritos que é acusado pela Polícia Civil, é alvo também de uma investigação dentro da PM. Já foi aberto contra ele um inquérito administrativo/disciplinar para avaliar condutas do policial e, caso o mau comportamento seja confirmado, a Wendel Cortez serão impostas sanções que vão desde uma suspensão até o licenciamento, ou expulsão, da Polícia.

“Já existe um processo administrativo correndo contra ele e, ao final, vamos ver o que o Conselho decide. Optando pelo licenciamento do PM, não vou ter nenhum problema em assinar o documento confirmando isso”, afirmou o coronel, que desde que assumiu o comando-geral da Polícia Militar, no dia 6 de abril, já licenciou seis PMs. “Além disso, já abri a instauração de outros seis processos administrativos”, contou Araújo Silva.

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